"Tudo o que a gente leva da vida é a lembrança"- concluía dona Teresinha mostrando-me as fotos antigas dos festejos da Capelinha do Divino Espírito Santo que seu pai construiu na rua do Trilho Velho- "por isso eu guardo tudo".
O sentimento de amor e lealdade é o grande mistério por trás da força que move essa septuagenária a dar continuidade à celebração do iniciada por seus pais. Uma labuta que vai do cuidado diário com a capela à organização dos festejos, catequeses e toques de caixa.
As promessas e as juras são muito comuns nesse diversificado e pujante universo que os eruditos ingleses de séculos atrás, mesmo sem saber direito o que queriam dizer com isso, chamaram de Folkclore.
Seu Bodó, outro divineiro de Caxias, lembra bem do peso que tinham as últimas palavras de seu pai em leito de morte: meu filho, faz de conta que você vai e eu fico, toma conta do meu festejo e não deixa de oferecer sempre o café com bolo e a janta no último dia de festa.
Bodó, como todos sabem, nunca deixou de realizar o festejo do Divino Espírito Santo na rua Alagoas até hoje. Dona Teresinha também não. Poderia narrar e enumerar uma cipoada de histórias e promessas que atravessaram e mudaram vidas, ruas, bairros e até mesmo países, mexendo nas estruturas da mente e da geopolítica. A exemplo, olhem no que não deu a morte do arquiduque austro-húngaro Franz Ferdinand, do imperador romano Júlio César, do ditador Getúlio Vargas ou mesmo a morte do fazendeiro José Ferreira da Silva, pai do famoso cangaceiro Lampião.
A certeza de que a vida nunca mais será a mesma é uma verdade indiscutível que todos aqueles que perderam alguém amado guarda consigo mesmo sem querer. Aquele pequeno mundo, antes habitado por duas, três, quatro o mais pessoas e que vislumbramos nos almoços e reuniões de família jamais existirá novamente, e a gente sabe disso. A perda é uma experiência tão dolorosa que não arriscaria dizer que nós superamos a perda de alguém amado, mas sim que sobrevivemos a ela. E, assim, na medida em que envelhecemos vamos nos tornando um mar de sobreviventes, retirantes, imigrantes e refugiados da dor de perder alguém.
Mas não é da dor que esse texto trata, é da morte. Da morte, da vida e da eterna luta do ser humano contra o tempo. Da eterna dúvida sobre o que vem depois que fechamos os olhos e da misteriosa certeza de que a morte não é o fim e as promessas comprovam isso.
Cayo Cruz
Muito bom!!!
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