segunda-feira, 2 de novembro de 2020

A morte, a dor e a promessa : uma crônica para o Dia de Finados


"Tudo o que a gente leva da vida é a lembrança"- concluía dona Teresinha mostrando-me as fotos antigas dos festejos da  Capelinha do Divino Espírito Santo que seu pai construiu na rua do Trilho Velho- "por isso eu guardo tudo". 

O sentimento de amor e lealdade  é o grande mistério por trás da força que move essa septuagenária a dar continuidade à celebração do  iniciada por seus pais. Uma labuta que vai do cuidado diário com a capela à organização dos festejos, catequeses e toques de caixa.

As promessas  e as juras são muito comuns  nesse diversificado e pujante universo que os eruditos ingleses de séculos atrás, mesmo  sem saber direito o que queriam dizer com isso,  chamaram de Folkclore. 

Seu Bodó, outro divineiro de Caxias, lembra bem do peso que tinham as últimas palavras de seu pai em leito de morte: meu filho, faz de conta que você vai e eu fico,  toma conta do meu festejo e não deixa de oferecer sempre o café com bolo e a janta no último dia de festa.

Bodó, como todos sabem, nunca deixou de realizar o festejo do Divino Espírito Santo na rua Alagoas até hoje. Dona Teresinha também não. Poderia narrar e enumerar uma cipoada de histórias e promessas que atravessaram e mudaram  vidas, ruas, bairros e até mesmo países, mexendo nas estruturas da mente e da geopolítica. A  exemplo, olhem no que não deu a morte do arquiduque austro-húngaro Franz Ferdinand, do imperador romano Júlio César, do ditador Getúlio Vargas ou mesmo a morte do fazendeiro José Ferreira da Silva, pai do famoso cangaceiro Lampião.

A certeza de que a vida nunca mais será a mesma é uma verdade indiscutível que todos aqueles que perderam alguém amado guarda consigo mesmo sem querer. Aquele pequeno mundo, antes habitado por duas, três, quatro o mais pessoas e que vislumbramos nos almoços e reuniões de família jamais existirá novamente, e a gente sabe disso. A perda é uma experiência tão dolorosa que não arriscaria dizer que nós superamos a perda de alguém amado, mas sim que sobrevivemos  a ela. E, assim, na medida em que envelhecemos vamos nos tornando um mar de sobreviventes, retirantes, imigrantes e refugiados da dor de perder alguém.

Mas não é da dor que esse texto trata, é da morte. Da morte, da vida e  da eterna luta do ser humano contra o tempo. Da eterna dúvida sobre o que vem depois que fechamos os olhos e da misteriosa certeza de que a morte não é o fim e as promessas comprovam isso.

Cayo Cruz



domingo, 1 de novembro de 2020

"Como Botar um Boi" será lançado em 2021!


                                           (Da esquerda para a direita: Lourival, Osmar e Raimundo Magarefe, todos os três aparecem 
                                                                                no livro Como Botar um Boi: Manual de Guerrilha)


Pessoal! Próximo ano estarei lançando meu primeiro livro, o romance em prosa " Como Botar um Boi: manual de guerrilha". Ele traz uma releitura do mito de surgimento do bumba boi a partir do romance entre Catirina  e Pai Francisco e introduz caboclos, encantados e mestres do bumba boi de Caxias (MA) entre os heróis da aventura. Uma ficção que nos move entre toadas,  ritmos e nomes  que marcaram a história do bumba boi da nossa cidade e do nosso Estado. O livro é voltado para o público infanto-juvenil e foi pensado como forma de auxiliar os professores da rede pública municipal e estadual  durante o processo de aprendizagem.

Ele foi escrito no ano de 2017  em Caxias ( MA) e após várias tentativas de tentar ilustrá-lo, em 2020 o destino quis que desse certo, e deu. Tanto os prefácios quanto a ilustração contarão com a colaboração de grandes artistas caxienses - que por enquanto é segredo. Peço que aguardem mais informações e agradeço a todos e todas que me ajudaram até aqui: lendo, comentando e dando força. 

Sem mais,

Deixo o primeiro verso do livro para ser apreciado por todos vocês.


 Como Botar um Boi: Manual de Guerrilha 

Autor: Cayo Cruz

Essa história foi escrita por quem gosta de tocar

Zabumba, pandeirão, tambor-onça e maracá

Todos tambores da terra, nossa cultura popular

Uma arte tão sofrida, mas tão doce de fazer

que duramente perseguida conseguiu sobreviver

naquela letra do artista

que não tem como esquecer

enfrentando o preconceito e a discriminação

vou contar uma história em Caxias do Maranhão

sobre o nosso bumba-boi

tradição brasileira

vou falar dos seus artistas, essa gente tão guerreira

uma história assim tão linda

só me faz acreditar,

Quem é que nunca sonhou em ser artista popular?

Em esquentar tambor à noite

à beira de uma fogueira

vestido de caboclo,

cazumbá, índia guerreira

mandando um verso feito

ou na improvisação

cada um com sua história

compõe um batalhão

uma história assim tão linda

só me faz acreditar

quem é que nunca sonhou em ser artista popular?

E agora peço licença, a prosa vou começar

A história dos maiores poetas desse lugar

Para vencer o esquecimento vou usar o coração

E desmembrar cada fibra

dessa tão linda tradição

Se algum nome eu esquecer,

E se algo não lembrar,

É porque a história acontece em todo lugar

Se minha rima não for boa, ou faltar inspiração

Peço que respeite ao menos a intenção

Uma história assim tão linda, só me faz acreditar

Quem é que nunca sonhou em ser artista popular?

A morte, a dor e a promessa : uma crônica para o Dia de Finados

"Tudo o que a gente leva da vida é a lembrança"- concluía dona Teresinha mostrando-me as fotos antigas dos festejos da  Capelinha ...